Síndrome do chefinho

Trabalho, até a próxima semana (pedi demissão em janeiro), em uma empresa onde pessonhas têm a síndrome do chefinho. O que significa que TODOS manda. Ninguém obedece. Mas TODOS continua mandando mesmo assim. Afinal, o importante é… parecer importante. Porque na verdade ninguém é, mas ninguém se dá conta. E aí que tenho 257 pessoas que acham que são meus chefes. (E, na verdade, minha chefe foi demitida em fevereiro, mas who cares? Bora sair dando ordens e jogando responsabilidades nas costas dos outros?).

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Quem manda nessa porra aqui não é você!

A pior colega de trabalho que se pode ter no mundo, adivinhem… senta na minha frente. E é ela que tem a síndrome mais aguda do chefinho. Porque não basta ela se sentir essencial para o futuro da humanidade, ela fede a cigarro (às vezes ela fede a whisky também, mas antes de qualquer um sentir o cheiro ela avisa que ela encheu a cara na noite passada e que ela ainda está bêbada e que a vida social dela é a mais agitada e divertida da França), tosse e espirra a cada cinco minutos como se o único intuito dela fosse propagar todos os vírus existentes (não é; o verdadeiro objetivo dela é realmente ser chefinha), arrota alto, soca a mesa quando recebe um e-mail pedindo para ela fazer alguma coisa (como assim? não é ela quem manda… NO MUNDO?), recebe sms a cada minuto, senta quase deitando e ocupa o espaço que era para ser meu e vive batendo nas minhas pernas, tem orgulho de ter caganeira e chega no escritório dando todos os detalhes na noite que ela passou no toilette e toda sexta-feira ela resolve animar o escritório com Linkin Park, Sistem of a Down, Limp Bizkit, Red Hot Chili Peppers do começo dos anos 2000. Turro beim, respeito o (mau) gosto musical dos collegues (mentira). Mas precisa cantar junto? « Drreame offe califorrnicationeeeee » (com aquele sotaque irritante que só os franceses conseguem ter em inglês). E bater na mesa, dizendo: « Putaaaaaaaaaain, essa música arrache la gueule ». (Não vale a pena traduzir).

Me pergunta se pode piorar. E eu respondo que, apesar de TUDO, a criatura ainda se acha no direito de reclamar dos collegues.

Como assim? Ela reclama que os collegues são burros, não entendem o que ela pede (manda). Que as pessoas se perfumam para vir ao trabalho (ela é alérgica), que o cheiro de creme de mãos e cheiro de chá a fazem espirrar (cigarro e whisky não) que os outros celulares vibram (e isso atrapalha a concentração dela) e não gosta que as outras pessoas coloquem fones de ouvido quando ela está ouvindo os melhores hits da adolescência do interior da Bretanha nos anos 90.

– Daniellá, tu não está escutando a minha música?

– Não.

– Pourquoi?

– Porque eu não gosto da tua música.

– HAHAHAHAHA.

– Verdade.

– O que tu estás ouvindo?

– A seleção da semana dos Inrocks.

– Les Inrocks são hipsters de merda.

– Aham. Tchau. (colocando os fones).

– Tu vais em algum festival esse ano?

– Não sei ainda.

– Eu vou no Rock en Seine.

– Aham.

– Putain, vai ser génial! – dá um soco na mesa.

– Eles ainda não divulgaram a lista das bandas, mais d’accord…

– Já divulgaram que vai ter System of a Down.

– Ah, ok.

– Tu gosta de System of a Down?

– Não.

– Putaaaaaaaaaaaain, por quê?

– Porque não gosto.

– Tu só gosta de bandas estranhas.

– Aham.

– Putaaaaaaaaaaaaaain, vou ver System of a Down e tu não! HAHAHAHAHA!

– … (colocando os fones de ouvido de volta)

Aí na semana passada tocou o telefone dela e ela estava fazendo um tour pela empresa e enchendo o saco de outras pessoas com esse tipo de conversa, se é que se pode classificar esse tipo de interação de conversa. Eu atendi o telefone, a pessoa pediu para falar com a criatura. Collegue legal que eu sou, fui atrás dela pela empresa. Ela estava contando a história da caganeira para um outro colega, no lado oposto onde eu trabalho. Cheguei com o telefone e disse:

– Telefone para ti.

– Quem é? – ela me pergunta como se eu tivesse obrigação de saber.

– Não sei.

– Putaaaaaaaaain.

E eu, com o braço estendido, segurando o telefone.

– Pegaí, presente.

– akhegkgkezgkegk (não entendi o que ela disse, não falo homem das cavernas language ainda apesar de um ano de treinamento com ela).

Cinco minutos depois, depois de falar com a pessoa que provavelmente se deu conta que ela não queria atender o telefone para contar a memorável história do dia em minha collegue passou horas no toilette com caganeira explosiva, se aproxima e diz:

– Da próxima vez que tu atenderes o telefone, tu perguntas o nome e o telefone da pessoa, anota e depois me passa. E outra coisa, não fala « presente » quando passares o telefone. Isso não é educado. Quem está do outro lado da linha pode ouvir e não gostar.

Conclusão: neanderthals com síndrome do chefinho estão evoluindo e dando lições de étiquette e secretariado.

Interessados na formação?


Victor Hugo, who are you?

How to deal?

Duas brasileiras, mãe e filha, conversando no metrô parisiense (linha 2):

– Mãe, olha o nome segunda parada! – aponta para a lista de paradas em cima da porta do metrô.

– Ah, Victor Hugo, que nem o teu primo, né.

– É.

– Temos que descobrir quem é esse tal de Victor Hugo.

– Não tenho a menor ideia.

– Deve ser uma pessoa importante pra ter nome de parada de metrô. E ser marca famosa de bolsa também né.

– Pois é.

FIM

Deux brésiliennes, la mère et sa fille, parlaient dans le métro parisien (ligne 2) :

– Maman, regarde le nom du deuxième arrêt ! – et elle pointe la liste d’arrêts sur la porte du métro.

– Ah, Victor Hugo, comme ton cousin, n’est-ce pas?

– Oui.

– Il faut qu’on découvre qui c’est ce Victor Hugo.

– Je n’en ai aucune idée.

– J’imagine que ce doit être quelqu’un d’important pour devenir un arrêt de métro. Et pour être une marque célèbre de sacs aussi, n’est-ce pas?

– Bah oui.


Liberté, Égalité… Unanimité

(Voir à la fin de ce texte pour la version française)

Da janela do meu apartamento, observo uma senhora com dificuldades motoras atravessar lentamente, pela faixa de pedestres, uma das vias do Boulevard de Clichy, em Pigalle. O sinal abre para os carros, mas ela ainda tem a metade do trajeto para percorrer até chegar à calçada. Um motoqueiro, em alta velocidade, vem de encontro à senhora, que continua, impassível, a aventura de atravessar a movimentada avenida em pequenos passos. Não contente, ele ameaça avançar o veículo contra a idosa e se mete a buzinar como se ela ainda não tivesse percebido sua bruta presença.

– Eu não consigo andar mais rápido do que isso, você não vê? – ela se explica, sem parar de caminhar.

Mas o motoqueiro insiste nos buzinaços, agora perseguindo a pobre senhora pela faixa de pedestres. Ao notar que pessoas se acumulam na calçada, e uma confusão começa a se armar em favor da idosa, ele grita qualquer grosseria e segue adiante, acelerando sua motocicleta e sumindo na avenida. Um homem que ajuda a resgatar a idosa perto da calçada responde ao apressado no mesmo nível, ao que a velhinha comenta, sorrindo:

– Voilà, isso é Paris.

Namorado, ao me ver parada em frente à janela, me pergunta o que acontece. Explico, ainda revoltada com a cena que acabo de presenciar.

– Voilà, isso é Paris – ele me responde.

Uma vergonhosa e coletiva certeza, ao que parece.

Depuis la fenêtre de mon appartement, j’observe une dame avec des difficultés motrices traverser lentement, par un passage piétons, l’une des voies du Boulevard de Clichy, à Pigalle. Le feu passe au vert pour les voitures, mais elle a encore la moitié de son trajet à parcourir jusqu’au trottoir d’en face. Un homme en moto, à grande vitesse, s’approcha d’elle, suivant impassible, l’incroyable traversée de ce mouvementé boulevard à petit pas. Pas content, l’homme menace d’avancer son véhicule vers la dame et commence a klaxonner comme si elle n’avait pas perçue sa présence brutale.

– Je ne peux pas marcher plus vite, vous ne voyez pas ? – elle s’explique, sans s’arrêter de marcher.

L’homme en moto continue de klaxonner avec insistance, maintenant en persécutant la pauvre dame sur le passage piétons. En s’apercevant que des passants s’accumulaient sur le trottoir, et une confusion commençait en faveur de l’handicapée, il crie une grossièreté quelconque, fait accélérer sa moto et disparaît dans l’avenue. Un monsieur qui va au secours de la dame répond en hâte sur le même niveau, ce qu’elle commente, en souriant:

– Voilà, ça c’est Paris.

Petit-ami m’observe devant la fenêtre et me demande ce qu’il se passe. Je lui explique, révoltée encore par la scène que je viens d’accompagner.

– Voilà, ça c’est Paris – il me répond.

Une honteuse et collective certitude, il me semble.


Paris is a party… in 2000 images


Last days of winter


Merci, Interpol!

Interpol, 15/03/11, Zénith, Paris

(Voir à la fin de ce texte pour la version française)

Eles abriram o show com Succes, faixa número 1 do último álbum, Interpol. Também tocaram as marcantes PDA, Evil, Narc, C’mere, Slow Hands, além de duas do álbum antecedente, Your Love  to Admire. E apresentaram poucas faixas novas – boa sacada já que o novo álbum saiu há pouco tempo. O fade-out da apresentação com Obstacle 1 foi com chave de ouro.

Resumidamente, o show dos novaiorquinos do Interpol de ontem à noite (15/03) no Zénith, em Paris, aconteceu na medida certa, nem a mais, nem a menos, e perfeito assim mesmo. Tudo o que o público espera de um show. Um muito bom show.

Ils ont ouvert le concert avec Succes, morceau numéro 1 du dernier album, Interpol. Le groupe a joué aussi les célèbres PDA, Evil, Narc, C’mere, Slow Hands et deux autres de l’album précédent, Your Love to Admire. Et pas beaucoup des nouvelles musiques – bonne décision vu que le nouvel album est sorti il y a peu. Le fade-out avec Obstacle 1 c’était le moment clé.

En résumé, le concert des new yorkais d’Interpol d’hier soir (15/03) au Zénith, à Paris, c’était « au poil », ni trop, ni pas assez, et, ainsi, parfait. Tout ce que le public attend d’un concert. Un très bon concert.

Setlist:

1. Succes

2. Say hello to the angels

3. Narc

4. Hands away

5. Barricade

6. Rest my chemistry

7. Evil

8. Lenght of love

9. Lights

10. C’mere

11. Summer well

12. NYC

13. The Heinrich maneuver

14. Memory serves

15. Not even jail

+ encore

16. Untitled

17. The new

18. Slow Hands

19. Obstacle 1


Blasé, moi?

LA, por Petit-ami: feia, suja e sem identidade /// LA, selon Petit-ami : moche, sale et sans identité

(Voir à la fin de ce texte pour la version française)

Da série Como era gostoso o meu francês.

Namorado volta de Los Angeles dizendo que odiou a cidade, que tudo é feio, sujo e sem identidade. E se irrita mais ainda quando eu pergunto se ele visitou a Calçada da Fama:

– É uma avenida ridícula, com aquelas estrelas no chão que não servem para nada.

– É o principio do turismo, mon chéri. Combinemos que a Torre Eiffel também não tem uma finalidade extraordinária.

– Ah, não. Com a Torre Eiffel é diferente.

– Por quê?

– Pelo menos ela faz sombra.

De la série Comme il était bon mon petit Français.

Petit-ami revient de Los Angeles en disant qu’il a détesté la ville, qu’elle est moche, sale et sans identité. Il se fache plus quand je lui demande s’il est allé au Hollywood Walk of Fame :

– C’est une avenue ridicule, avec les étoiles par terre qui ne servent à rien.

– C’est ça le principe du turisme, mon chéri. On est bien d’accord que la Tour Eiffel n’a pas une finalité extraordinaire non plus.

– Ah, non. C’est différent avec la Tour Eiffel.

– Pourquoi?

– Parce que, au moins, elle fait de l’ombre.